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Boooliberlim, quem quer bolinhas?

O Verão já chegou (apesar de todas as limitações de acesso e permanência na praia) e com ele os dias quentes e os pregões, hoje em dia mais modestos e até com uma pronúncia estrangeira.

Durante anos a fio, nas incontornáveis férias grandes, um cantinho do Algarve viu-me crescer e eu a ele. Lembro-me de ver os pescadores a vender peixe na praia, de escavar conquilhas com o pé para um petisco, do homem vestido de preto com um cesto de verga a apregoar “doooces regionais, especialidade do Algarve” e dos muitos outros vendedores a promoverem as suas “Boooliberlim, quem quer bolinhas? Há com creme e sem creme. Bolinhas!”. Isto foi lá atrás nos anos 80/90. Hoje o pregão seria mais assim “Boooliberlim, há com creme e sem creme, há de alfarroba e com chocolate, há sem glutém e vegan”. Modernices.

Porém, a esmagadora maioria dos Portugueses que as come, desconhece por completo que as famosas Bolas de Berlim que fazem parte das prateleiras de qualquer pastelaria que se preze se deve a uma emigrante judia. Perante as adversidades financeiras, a Sra Rosenheim começou a fazê-las em casa e a comercializá-las pela colónia alemã de Lisboa que não tinha qualquer “problema” em comprá-las a judeus1.

Quando a Sra. Liselotte Rosenheim chegou com o marido a Lisboa, nos anos 30, após a chegada de Hitler ao poder mas ainda antes do início da 2ª Guerra Mundial, fugidos da dramática vida que o regime Nazi fazia já então antever, não sonhava que, algum dia, o seu ganha-pão se viesse a tornar numa iguaria que qualquer Português consome maioritariamente no Verão, na praia.

De Caminha a Vila Real de Sto. António, os vendedores que percorrem diariamente quilómetros nas praias, com pregões mais ou menos sonantes, não vendem pastéis de nata (por ventura, o pastel português mais internacional), nem pirâmides de chocolate, nem babás encharcados. Os cestos que carregam o lanche da manhã ou da tarde estão cheios de Berliner Pfannkuchen, também conhecidas por Kreppel, Krapfen, Puffel ou simplesmente Berliner, dependendo da zona da Alemanha, adaptadas ao gosto luso. Originalmente é um bolo de massa fofa frita recheada com doce de fruta ou creme de baunilha ou ainda com natas e polvilhado com açúcar em pó. Come-se tradicionalmente no Ano Novo e no Carnaval. Pois esta especialidade alemã, em quase 90 anos, adaptou-se ao gosto nacional substituindo o doce de fruta por creme de pasteleiro ou sem qualquer creme e o açúcar em pó por açúcar refinado.

Em jeito de pensamento positivo nos tempos que correm, foi a dificuldade financeira da família que levou a Frau Rosenheim a arregaçar as mangas e a fazer, em casa, o que conhecia do seu país. Se o negócio do seu marido tivesse corrido de feição quando chegaram a Portugal, talvez nunca lhe tivesse passado pela cabeça fazer as Berliner e os Verões Portugueses não teriam sido os mesmos. Lá diz o ditado “Há males que veêm por bem”.



Notas:

1 “Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial em Fuga de Hitler e do Holocausto” de Irene Flunser Pimentel

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